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CUIABÁ, 6 A 12 DE DEZEMBRO DE 2012
Invalidez em 66% das ocorrências
Muitas sequelas poderiam ser evitadas se não houvesse fila para cirurgias ortopédicas por falta de médicos e leitos.
Por Mayla Miranda. Fotos: Pedro Alves
MOTOCICLETAS
Mato Grosso possui
uma frota de 466 mil
motocicletas, o que
coloca este tipo de
veículo como o recordista
em acidentes de trânsito e
de vítimas fatais. Em
2012
já deram entrada
no Pronto-Socorro
Municipal de Cuiabá
3.817
vítimas de
acidentes com motos, das
quais 1,65% morreram.
Segundo dados do
Seguro Obrigatório de
Danos Pessoais Causados
por Veículos Automotores
de Vias Terrestres (Dpvat),
66%
das pessoas que se
acidentam ficam inválidas
para sempre. Muitas têm
membros amputados.
Este índice se reflete
diretamente nos
atendimentos realizados
pelo Pronto-Socorro
Municipal de Cuiabá, que
recebe, por dia, entre sete
e nove pacientes com
fraturas ocasionadas por
acidentes de moto, muitos
dos quais em estado
gravíssimo. Estes tipos de
pacientes sobrecarregam
o PSM gerando gastos
elevados. Segundo o
diretor geral do
PSM,
Antônio Ignácio,
esse volume de acidentes
com motos gera uma
despesa de mais de R$1
milhão por mês em
cirurgias ortopédicas,
principalmente as de
politraumatismo (mais de
uma fratura), que são
consideradas de alta
complexidade.
As pessoas falam da
fila para as cirurgias em
Cuiabá, eu entendo, mas
é complicado lidar com
uma demanda tão
grandiosa na instituição.
Nós atendemos todo o
Comerciante
já perdeu
20
clientes
O aumento dos
acidentes com motos
também na Capital
também pode ser
percebido pelos
empresários do ramo.
Segundo a
proprietária de uma
oficina mecânica do
bairro Pedra 90,
Maria Paula Franco,
mais de 40 motos
dão entrada por mês
para conserto por
conta de colisão. A
empresária ainda
relata que nos quatro
anos de atuação na
região já perdeu mais
de 20 clientes em
acidentes de moto, e
todos os dias recebe
ao menos um cliente
ferido em sua loja.
Como eu moro
no bairro, acabo
ficando amiga dos
meus clientes, fico
muito triste quando
recebo a notícia de
que um deles acabou
falecendo ou está
muito machucado,
principalmente
quando o acidente é
fruto de imprudência.
Não faz muito tempo
que um carro
desgovernado
dirigido por um
menor matou uma
mulher e sua filha
quase em frente à
loja. Muito triste esta
situação”, desabafou.
Desesperado,
paciente
pagou propina
Além de a
população sofrer com
as deficiências do
sistema, também se
torna vítima da triste
corrupção ali instalada.
Como nos relatou João
Marques (nome fictício
utilizado pela
reportagem, para
proteger a identidade
do paciente que não
quis se identificar), que
pagou R$1.200 dentro
do Pronto-Socorro de
Várzea Grande para sair
da 66º posição da fila
para o 3º lugar.
Após sofrer o
acidente de moto e
quebrar um braço, a
família do paciente foi
induzida a realizar o
pagamento da propina,
que foi efetuado em
duas parcelas, sendo
uma na hora da
negociação e a outra na
hora da cirurgia para
um gesseiro do hospital.
Na época foi muito
difícil porque eu estava
desempregado e minha
família teve que pegar
até dinheiro emprestado
para realizar o
pagamento, mas se eu
não fizesse a cirurgia
logo provavelmente ia
ficar com problemas
para trabalhar”, contou
João que ainda lembrou
que na época do
acidente os valores
eram tratados
abertamente dentro da
instituição.
Faltam médicos no SUS para cirurgias
Outro grande
problema enfrentado
pela população é o
número insuficiente de
médicos para a
realização dos
procedimentos pelo
Sistema Único de Saúde
(
SUS).
De acordo com o
Sindicato dos Médicos de
Mato Grosso (Sindmed),
hoje apenas 11
ortopedistas estão
registrados na Secretaria
Municipal de Saúde e
estão divididos nas
unidades de
atendimentos da capital,
incluindo o Pronto-
Socorro Municipal de
Cuiabá.
Para a realização do
mutirão de atendimento
Segundo o
promotor público
Alexandre Guedes, a
situação da falta de
atendimento à
população é
consequência da
omissão do Estado
que em 10 anos
aumentou apenas 55
leitos de hospitais na
Grande Cuiabá e um
hospital em Sinop.
Porém o Hospital
Metropolitano,
localizado em Várzea
Grande e que é
Para MP, Estado é omisso
gerenciado por uma
organização social, não
recebe pacientes de alta
complexidade.
Na verdade o estado
e as cidades de Mato
Grosso sofreram um
grande aumento
populacional, e a gestão
não acompanhou este
crescimento. Tudo no
estado precisa ser
reavaliado, principalmente
o transporte e a saúde”.
O promotor ainda
lembra que para o estado
o prejuízo, social e
financeiro, é ainda maior
já que a maioria dos
acidentados com moto
são homens, em idade
laboral, arrimos de
família, que acabam
ficando sem condições de
sustentar a sua casa, e
mesmo após a
reabilitação, por conta da
demora no atendimento,
ficam com grandes
sequelas que os impedem
de exercer a sua atividade
plenamente. Outro grande
problema apontado pelo
promotor é a falta de
transparência das
agências de
regulação de vagas e
dos gastos realizados
com os
procedimentos. “Caso
o cidadão se sinta
prejudicado, é
extremamente
importante que ele
procure a Defensoria
Pública ou o MP com
a máxima urgência,
para que possamos
solicitar os
atendimentos
adequados”.
ortopédico, que está em
andamento, foi
contratada uma
empresa médica com
cerca de 10
profissionais em regime
de emergência.
Segundo a presidente
do sindicato, doutora
Elza Queiroz, este
número é totalmente
insuficiente. “Teríamos
que ter no mínimo 30
profissionais
regularmente
contratados pela
secretaria; destes, 16 no
PSMC, para que não
acontecesse nenhuma
falha durante os
plantões, e o restante
para atendimento nas
clínicas para pós-
operatório”, alertou.
estado, inclusive pacientes
interestaduais e até
internacionais,
principalmente vindos da
Bolívia. Se nós recebemos
todas as pessoas que nos
procuram, os corredores
ficam cheios, se não
recebemos, é omissão de
socorro”, declarou.
Além dos pacientes
que permanecem
internados, casos
considerados de menor
complexidade que
aguardam cirurgia em
casa, através de vagas
pela Central de
Regulação Municipal,
chegam a ficar mais de
um ano à espera do
procedimento. Esta
espera gera
consequências trágicas a
pacientes que muitas
vezes não conseguem
recuperar seu poder
laboral por conta das
sequelas adquiridas com
o acidente, que ficam sem
o tratamento adequado.
Segundo a assessora
jurídica da central, Miriam
Guimarães, as vagas
para os procedimentos
são divididas em três
classificações, sendo elas:
eletiva 1, na qual o
paciente fica em um mês
na fila para a liberação
do procedimento médico;
eletiva 2, na qual o
paciente espera em
média quatro meses e
eletiva 3, na qual a
espera é de cerca de
nove meses ou mais.
Esta classificação é
realizada pelo médico da
central e encaminhada
para as vagas nos
hospitais. O que muitas
vezes acontece é que nós
realizamos a liberação,
mas os hospitais não têm
vagas para fazer os
procedimentos”,
informou.
IMPRUDÊNC I A
Para o presidente
do
Comitê Municipal de
Mobilização pela Saúde
e Segurança no
Trânsito, Fabio Liberali
Weissheimer, cerca de
90%
dos acidentes com
moto poderiam ser
evitados apenas com
ações de prevenção e
repressão à
imprudência.
A repressão aos
crimes e à imprudência no
trânsito funciona muito
bem, nós tivemos a prova
disto com a implantação
da Lei Seca. Nesta
implantação da lei eu era
médico do Samu (Serviço
Móvel de Urgência); na
época eu fiz um estudo
sobre a aplicação que
constatou que a Lei Seca
impactou em 60% na
diminuição dos acidentes
no mês da fiscalização
ostensiva”, declarou o
médico que ainda
complementou que a falta
de fiscalização gera o
não funcionamento da lei.
É preciso que todos
tomemos consciência de
que se houvesse mais
cautela no trânsito, os
recursos poderiam ser
investidos em outras áreas
de atendimento que
ainda se encontram muito
deficientes”.
Motoqueiro acidentado insiste em pilotar sem as mínimas condições necessárias colocando aumentando riscos
A falta de prudência e preparo dos motociclistas são
apontados como principais fatores dos acidentes
A médica Elza Queiroz diz que a falta de médicos
ortopedistas gera filas por cirurgias