Gabriel Novis Neves
Presente de grego
O agonizante Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM) ganhou um presente de Brasília. O Ministério da Educação reconhecendo o seu excelente curso de Medicina em graduação aumentou, por mérito, o número de vagas para os médicos residentes.
Para a qualificação de um bom médico não basta apenas graduação. Num mundo com excesso de informações a caminhada hoje é longa. Inicialmente é necessária a Residência Médica - uma pós-graduação, com o título de “latu-sensu”, que confere ao médico o título de especialista. Depois vem o mestrado, doutorado e pós-doutorado, fazendo parte da pós-graduação “strictu-sensu”. Traduzindo: cada vez o médico sabe mais de menos. É a evolução dos tempos e que o paciente percebe na consulta médica.
Cuiabá sempre acalentou o sonho de possuir uma escola de Medicina - hoje este sonho é uma realidade. Formamos os melhores médicos em graduação do Brasil. No futuro, os melhores doutores e pós-doutores. Como lembra Carlos Drummond de Andrade, “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra”. A pedra no meio do caminho deste projeto foi colocada pelas mesmas autoridades federais que aumentaram o número de bolsas para a formação de médicos especialistas, através do aumento de alunos para a residência médica. Com uma mão a dádiva, com a outra retiram as horas necessárias para o bom funcionamento do hospital- escola e que atende cem por cento a clientela do SUS.
O número de alunos em graduação no curso de medicina, ultimamente, simplesmente duplicou. Este aumento não foi acompanhado pelo número de docentes e servidores, muito menos pela necessária expansão física do velho hospital de tuberculosos. Todos os que trabalham em gestão hospitalar sabem que, após cinco anos, o equipamento hospitalar torna-se obsoleto. A estrutura física de um hospital tem uma vida útil tecnológica de quinze anos. Depois aparecem os famosos puxadinhos. Com relação à reposição dos equipamentos não vejo problemas para os hospitais públicos.
Quando o nosso curso de Medicina estava em seu primeiro ano de funcionamento, fui chamado à Brasília. O departamento comercial do Itamaraty queria porque queria que eu, como reitor, assinasse um termo de compromisso para receber um aparelho de tomografia e outro de ressonância magnética como doação. Era o produto de um acordo comercial do Brasil com um país europeu. Disse ao embaixador responsável pela distribuição dos equipamentos, que a nossa escola de Medicina estava no seu primeiro ano e que não possuíamos ainda hospital nem lugar para abrigar, com segurança, aqueles equipamentos. Conseguir recursos financeiros para ampliação ou construção de um novo hospital também não é problema para o governo. O “X” do problema é conseguir verbas para a sua manutenção. Aí todo mundo foge do projeto como o diabo foge da cruz. O governo do Estado fez a sua parte; comprou dois hospitais com pacientes e transformou um, em garagem do SAMU e o outro, em laboratório e administração.
É ofensa grave cobrar do governo estadual a construção de um hospital na capital do Estado. Prefere dar esmolas aos existentes. O quadro de Saúde Pública em Cuiabá e no Estado é gravíssimo. Quando alguém se apresenta para nos ajudar é para nos oferecer um presente de grego - como este de aumentar o número de bolsistas e fechar o hospital.
Durma com essa!
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