André Leite
Uma crise em doses homeopáticas
Esta crise dos mercados já completa 14 meses em setembro e tem alguns pontos completamente diferentes das crises passadas (Ásia, Rússia, Nasdaq, Torres Gêmeas e Lula 2002). O primeiro é a duração e intensidade. Os movimentos desta crise não são tão intensos, porém sua duração é bem longa. Fazendo-se uma analogia com as outras crises, era como se o mercado levasse um soco forte e bem dado e depois havia a recuperação. Desta vez, é como se o algoz torturasse, lentamente, sua vítima com um prolongado puxão de orelhas. Outro ponto de diferença é que desta vez não sabemos ainda o tamanho real do estrago nas instituições financeiras, ainda estima-se que teremos algo como USD 200 bilhões em perdas no balanço dos Bancos internacionais. Isso sendo verdade e assumindo que para cada 1 de patrimônio os Bancos detém, na média, 10 de ativos (crédito), teremos ainda cerca de USD 2 trilhões que os Bancos cortarão de linhas de crédito.
O Citigroup pagava um ‘spread’ de 7 pontos base (0,07%) sobre o título do tesouro americano no começo de 2007, agora está pagando 170 pontos base (1,7%). Isso implica em crédito mais caro e mais escasso na economia global e para as empresas emergentes que desejam captações, implica em taxas de juros mais altas.
Outra característica desta crise e que os ativos perderam as correlações históricas entre si, isto tem feito os gestores sofrerem muito, tanto em níveis globais quanto locais. As proteções de carteira simplesmente não têm funcionado de forma efetivas.
Há muitos anos não temos um ano tão ruim para a indústria de fundos hedge em todo o mundo. As incertezas ainda devem permanecer, o que torna o ambiente realmente desafiador. No mercado local, os resgates foram muitos dos fundos multimercado e poucos são os gestores talentosos que estão batendo o CDI este ano. Para quem passou de 2003 até 2007 comprando Kit Brasil (pré-fixado, compra de real e compra de bolsa) o ambiente está e continuará hostil.
Do ponto de vista macro-econômico, estamos com números dissonantes nos Estado Unidos. Ao mesmo tempo em que o PIB surpreende para cima, temos inflação e gasto do consumidor desapontando. Europa com números de crescimento fracos, ‘commodities’ sofrendo um processo de correção e o dólar ganhando força perante as moedas do mundo. Os emergentes continuam crescendo, porém a questão é se este impulso irá contrabalançar a desaceleração dos países desenvolvidos.
No Brasil, estamos vendo, na renda fixa, um arrefecimento nas taxas de juros futuras. Isto é fruto da correção recente no preço das commodities, que trouxeram um alívio nos últimos números de inflação. Alguns indicadores macro-econômicos apontam também para uma certa redução na atividade econômica para os próximos meses. Em não havendo uma nova retomada altista nas commodities, pode-se esperar que o Banco Central mantenha a intensidade dos aumentos da taxa básica de juros, porém optando por um tempo mais curto de juros mais altos. Isto é positivo para posições pré-fixadas puras ou híbridas como os papéis atrelados ao IPCA.
Na bolsa tivemos mais um mês negativo com queda de quase 7% para o índice Bovespa. Os estrangeiros, em seu movimento de redução de risco, continuam como os grandes vendedores de mercado. Os locais, cansados de tanto apanhar, se retraíram e o que tivemos em agosto foi um mercado de queda com pouco volume negociado. Para quem pensava no primeiro semestre de 2007, que “desta vez seria diferente”, estamos reaprendendo a natureza cíclica dos mercados e das economias.
Em 2007 chegou-se a captar R$ 1 bilhão para um projeto (sem nenhum ativo) hoteleiro em uma oferta inicial de ações. Agora vemos empresas até sólidas e com resultados bons perdendo nacos expressivos de seu valor de mercado por não atingirem metas. Os lançamentos de ações de 2006 e 2007 estão quase todos abaixo (alguns casos 70%-80%) de seus preços iniciais. Para quem achava que os IPO´s eram uma versão do mercado financeiro do programa do Silvio Santos “Quem quer dinheiro?” vemos agora que a conta chegou e de forma bem salgada.
Continuamos cautelosos (a despeito de bons prêmios em diversos ativos) e cremos que teremos mais alguns meses de incertezas e volatilidade pela frente, até que possamos afirmar que os mercados acharam uma tendência definida. O nome do jogo continua sendo conservadorismo.
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