
A vez da competitividade
Recentemente, a Veja noticiou que produtores franceses da região de Languedoc-Roussillon bloquearam ruas e estradas como meio de protesto frente ao revés do governo francês, de aumentar os subsídios para a produção de vinho. Como ato de repúdio ao vinho estrangeiro, os agricultores encapuzados chegaram a deitar fora o conteúdo de seis tanques de vinho importado, com valor estimado em 300.000 euros. Dois membros do grupo que organizam os atentados foram parar no hospital depois que uma das bombas caseiras que preparavam detonar acidentalmente.
Tal noticia não pode ser analisada como um fato isolado. O que está acontecendo no mercado mundial de vinhos para que produtores franceses se transformem em terroristas? Por outro lado, se os grandes vinhos da França parecem inflacionar ano a ano no mercado internacional, o que explica a crise desses produtores?
Desde o ano 2000, o consumo de vinho na França vem caindo, em média, 2,6% ao ano. Quatro em cada dez franceses não bebem vinho, entre eles o “badalado” presidente, Nicolas Sarkozy, que é abstêmio. Com uma produção excessiva para o consumo interno e sem uma bebida de qualidade para competir no mercado global, os produtores de vinho da região de Languedoc-Roussillon, vivem um momento difícil. A diferença das regiões de Bordeaux e Champagne, a região de Languedoc-Roussillon produz os vinhos mais baratos da França e tem o maior volume de produção do mundo. Os produtores não investiram na qualidade do produto ou não se preocuparam em criar selos de denominação de origem controlada. Durante muito tempo na França, o vinho desta região representou o vinho comum, principalmente o "gros rouge", o tinto ordinário presente em qualquer refeição dos operários, até mesmo no café da manhã.
Nos últimos anos, graças ao esforço de uma nova geração de vinhateiros como Mondavi, Rotschild e a gigante BRL Hardy, apareceram em Languedoc-Roussillon alguns tintos e brancos de personalidade. Mas, em meio a esse mar de "vins de table" a região está ainda muito longe de conseguir uma virada de marketing que permita um posicionamento de marca como possui Bordeaux.
A má noticia para o vinho de baixa qualidade francês é que a concorrência acirrada não é exclusividade da França. Há excesso de vinho no mercado internacional. A produção mundial no ano passado foi 12% superior ao consumo. Isso significa que vinhos jovens estão ficando estocados nas adegas. A importação de vinho chileno saltou na França de 560.000 litros em 1995, para 24,5 milhões de litros, em 2005. No mesmo período, a importação de vinhos australianos foi multiplicada por dezessete. É o Novo Mundo tomando conta do Velho Mundo. Paises como Argentina, por exemplo, são mais competitivos, pois já começaram com um sistema mais moderno de produção, investiram em novas tecnologias e apostaram em maior variedade de uvas. Conseguem custos mais baixos com qualidade.
A ajuda aos agricultores é uma tradição na União Européia. Por décadas os produtores franceses se beneficiaram com subsídios. Agora parece que o protecionismo não é mais “sustentável”. Nas últimas décadas vimos como a América do Sul transformou-se no seleiro do mundo. Agora resta perguntar: é possível imaginar o Novo Mundo (incluído o Brasil) engolindo o maior e mais velho vinhedo do mundo? Tirando Bordeaux e Champagne, é possível. É beber para crer. Até a semana que vem.
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