
Taça Vazia
Já falamos, em colunas anteriores, sobre a questão do bafômetro. Todo mundo concorda de que estava mais do que na hora, de fazer alguma coisa a respeito do abuso de álcool ao volante. Mas em lugar de ficar julgando se a nova lei de tolerância zero é anticonstitucional ou se viola os direitos individuais dos brasileiros, eu prefiro contar algumas experiências pessoais que exemplificam a dificuldade de adaptação para as exigências da lei.
A semana passada eu estava em Porto Alegre. E julho é sempre frio na capital gaúcha. Quando o sol se esconde na terra do vale dos vinhedos, eu nem me aproximo do chimarrão. Prefiro um merlot para esquentar a alma e o corpo. Harmonizamos o merlot com uma receita belíssima do meu sogro: risoto de pato. Hospedados na mesma casa onde jantamos; umas tacinhas a mais não representavam problema algum. Mesmo assim, foi moderado. Bebemos uma garrafa entre três. Após o jantar, lembramos que precisávamos comprar urgente um medicamento. Ligamos para a farmácia, mas há essa hora o rapaz da tele-entrega já tinha ido embora. Que fazer? Arriscar a saúde cortando o tratamento ou arriscar a carteira de motorista por um ano?
Sexta feira à noite é dia de curtir um chopinho em algum barzinho da Praça Popular. Não são muitos os que têm a minha sorte de morar a poucos metros da praça. Portanto, eu não estava nem ai com a questão do bafômetro. Mas quando o resto da turma começava a fazer o sorteio sobre quem deveria ficar sóbrio no final da noite, apareceu o garçom e surpreendeu todo mundo falando: “podem beber à vontade; temos uma equipe de espiões rondando a cidade e eles nos informam, a cada meia hora, onde se encontra a blitz do bafômetro”.
O churrasco no Domingo é sagrado. Posso estar na Argentina, no Brasil ou em Pequim. Mas tem que ter fogo, carne e vinho para que o Domingo seja Domingo. Mas este Domingo tinha carne, tinha fogo... mas não tinha vinho. Quer dizer, vinho tinha. O problema é que eu estava na fazenda e tinha que voltar para Cuiabá dirigindo. Pela primeira vez compreendi aqueles que dizem que o Domingo é um dia triste, deprimente. Deve ser porque eles não fazem o churrasco para a família e não bebem uma taça de vinho. Enfim, acabei tomando um suco de uva do Sinuelo para tentar enganar.
Se nada parecido aconteceu com você nas últimas semanas, você deve ser abstêmio ou possui motorista particular. Quem bebe como eu - a maioria das vezes, moderadamente - está tendo problemas sérios para se adaptar à nova lei. Nas reuniões entre amigos e familiares sempre tem alguém que precisa voltar dirigindo e fica triste e fora da rodada. Consequência? Baixou a venda de bebidas em lojas e supermercados. Em todo o país as confrarias de vinhos estão se dissolvendo. Bares afastados da cidade estão fechando as portas e os restaurantes sofreram um impacto seriíssimo no faturamento.
Conheço muitas pessoas que não bebem e batem o carro três vezes por ano. E conheço também pessoas que bebem mais do que moderadamente e não tem sinistros em vinte anos de estrada. Cuidado, eu sou a favor da fiscalização. Mas será que a tolerância zero é a única saída? Insisto: fiscalizar e punir é preciso. Mas se alguém não achar um meio termo que compreenda a identidade e cultura da população da qual a bebida é parte integrante, corremos o sério risco de ficar com a taça da alegria vazia. É beber para crer.
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