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Terroir vs Globalização

Na última coluna iniciamos um debate vivo, acalorado e necessário para compreender como funciona o submundo do vinho. Explicamos que existem duas fortes tendências oposicionistas mundiais em torno da produção de vinhos de qualidade. Por um lado, as grandes vinícolas mundiais, produtoras de marcas em escala, com imenso poder de marketing e distribuição e responsáveis pela globalização do vinho. Do outro lado, uma força menor, muito mais romântica e tradicional. Os pequenos produtores que defendem o terroir, resistindo ao uso de tecnologia que, segundo eles, desenvolve vinhos padronizados com excesso de madeira, corpo e álcool.

Para quem deseja conhecer mais sobre esta saborosa batalha entre padronização e terroir, nada mais indicado que assistir ao documentário de Jonathan Nossiter; MONDOVINO. Para quem ainda não viu, recomendo. O filme é uma crítica ácida ao status quo da globalização, mostrando de forma inteligente, a derrota do terroir nas mãos de três grandes protagonistas do vinho mundial: os Mondavi, principal expoente da pujante indústria de vinhos da Califórnia; o crítico Robert Parker, que desde seu pequeno escritório em Maryland-USA influencia milhões de consumidores dando notas aos vinhos e. finalmente, o engraçado enólogo francês Michel Rolland, quem presta consultoria para os maiores fabricantes de vinho do mundo. Nossiter opõe esses personagens ricos e famosos aos pequenos produtores artesanais que mantêm as tradições familiares e não estão preocupados apenas com questões comerciais, mas com a qualidade do que fazem - os chamados verdadeiros artistas do vinho.

Como sempre tem que olhe a taça meio cheia e quem a olhe meio vazia. Numa indústria com tanta falta de qualidade, por parte de alguns produtores, sair criticando a quem trabalha bem, a quem faz bons vinhos e sabe vender suas garrafas, me parece inapropriado. A modernidade e a tecnologia dificilmente são nocivas para a indústria. Na verdade, são grandes aliadas da produção de qualidade. Porém entendo e concordo, com a preocupação que existe sobre a padronização do vinho. É impressionante o número de produtores que procuram seguir a fórmula de vinhos concentrados, com muita fruta, muita madeira e muito álcool. Alguns exemplares dessa linha podem ser ótimos vinhos, mas o mercado acaba inundado por vinhos monotonamente parecidos, levando outros estilos a sumir das prateleiras.
Voltando ao filme MONDOVINO é uma ótima oportunidade para entender como funciona a produção, a concorrência e a comercialização do vinho, globalmente. Vale também a pena prestar atenção às opiniões dos pequenos produtores do “velho mundo”, de personalidade marcada, que com idade e caráter suficiente, não duvidam em dizer o que bem lhes apetece sobre as grandes corporações e os influentes Parker e Rolland. Mas cuidado, lembre que o filme é um pouco tendencioso ao comparar esses pequenos produtores familiares com os “monstros econômicos”. Como em qualquer outro filme, a escolha do espectador recairá sempre sobre o mocinho, o mais fraco, o mais poético e menos institucionalizado. Além disso, é importante frisar que qualquer uma das empresas “monstro” citadas, faz os melhores vinhos do mundo e quando adquire uma propriedade é para fazer excelência.

Considero importante este debate. Alguém precisa lutar para preservar as características regionais (terroir) e os métodos familiares. O cenário ideal seria a modernidade e a tradição convivendo lado a lado - às vezes até se misturando - para que o consumidor tenha à disposição uma maior variedade de vinhos para escolher. É beber para crer. Até a semana que vem.


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