
Terroiristas em Montalcino
Na coluna da semana anterior comentamos a notícia divulgada pelo Ministério Público Italiano de que foram recolhidas 600 mil garrafas do famoso Brunello di Montalcino, sob a suspeita de que tenham sido utilizadas uvas de variedades diferentes daquela exigida pela DOC. Explicamos que vinhos com DOC possuem padrões muito rígidos de produção que devem ser seguidos, estritamente, para manter o selo de garantia. Como o assunto é complexo, deixamos uma pergunta aberta para nosso leitor do Circuito refletir durante o final de semana: se o Brunello é um dos rótulos mais tradicionais e festejados do mundo, porquê os produtores precisariam alterar o vinho?
Não existe ainda confirmação de que estas garrafas tenham sido alteradas. Mas, minha suspeita é quase a mesma que tem a policia sobre o casal Nardoni. Os fatos são indiscutíveis. Este escândalo com o Brunello é o terceiro episódio que ocorre na Itália, envolvendo irregularidades no setor de comidas e bebidas no que vá de 2008. Portanto, não seria surpreendente que fosse verdade. Mas ninguém está aqui para julgar. O que cabe a nós, apreciadores de vinho, é compreender como funciona o “submundo” do vinho, para poder comprar e degustar com a menor margem de erro possível.
Vinho é sinônimo de prazer, glamour, tradição e fantasia. Mas o negócio que existe por trás dele envolve bilhões. E quando se fala em dinheiro, a fantasia do consumidor vira realidade para firmas gigantescas; onde milhões de empregos e produtos estão em jogo. Chegamos assim, ao que chamamos de mercado. Quem deseja sobreviver neste mundo competitivo, precisa atender à demanda e estar muito atento às mudanças e tendências do mercado. E é ali, exatamente, onde duas forças opostas vêm se enfrentando no mundo (ou submundo) do vinho. Por um lado, as grandes vinícolas mundiais, produtoras em alta escala, com imenso poder de marketing, distribuição e responsáveis pela globalização do vinho. Estes monstros econômicos são chamados de “terroiristas”; porque raramente mantém a individualidade e características do invejável terroir onde nascem suas uvas. Ao contrário, estas empresas são acusadas de uso excessivo de tecnologia que padroniza o sabor do vinho, escondendo os defeitos de algumas safras com excessos: excesso de concentração, excesso de madeira e excesso de álcool.
Do outro lado, uma força menor, muito mais poética e glamourosa. Os pequenos produtores europeus que ainda lutam para manter a elegância e tradição de seus vinhos, feitos com menos corpo, menos cor; mas com uma personalidade única que preserva a característica do seu terroir. Estes produtores defendem a individualidade de suas safras e garrafas, resistindo ao uso de tecnologia que, segundo eles, desenvolve vinhos muito homogêneos, sem cor local, sem tradição, sem ligação com a história nem com as pessoas da região. “Vinhos sem alma”, dizem eles. “Vinhos tão comerciais como um refrigerante” num mundo no qual a diversidade é a máxima premissa.
A luta por uma fatia de mercado é árdua. Cada lado tem seus soldados, seus líderes e suas armas. Quem vai ganhar esta batalha? Eu não tenho certeza. Mas voltando ao caso de Montalcino, cabe saber ainda, se essas garrafas foram adulteradas ou não. Caso venha se confirmar, talvez sejamos testemunhas de uma traição sem precedentes no submundo do vinho. Alguns produtores do tradicional Brunello, seduzidos pela demanda de vinhos padronizados, pela necessidade de ocultar defeitos de uma safra ruim, ou pela vontade de agradar o influente Robert Parker; podem ter pulado as trincheiras e virado os“terroiristas” de Montalcino. É beber para crer.
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