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Martin Luther King, Barack Obama e protecionismo

Paiva Netto



“Eu tenho um sonho de que um dia meus quatro filhos vivam em uma
nação onde não sejam julgados pela cor de sua pele, mas pelo seu
caráter.” Ao proferir esse discurso, em 28 de agosto de 1963, nos
degraus do Lincoln Memorial, como ápice da Marcha de Washington, numa
manifestação que reuniu aproximadamente 200 mil pessoas em defesa dos
direitos civis para os negros, o pastor, ativista político e líder
pacifista Martin Luther King Jr. (1929-1968) não imaginava que, quarenta
anos após sua morte, os Estados Unidos da América estariam elegendo o
primeiro presidente afro-americano da história de seu país. Não estou
aqui para discutir política. Contudo, esse fato notável, embora não
represente o fim do racismo nas terras do Tio Sam, constitui avanço dos
mais significativos para bani-lo das consciências, não só
norte-americanas, mas de todos os povos. A eleição de Barack Obama
surtirá os mais diferentes efeitos na existência das nações. Peço a Deus
que o ampare e nos livre do protecionismo deles.

“O mundo irá misturar-se como um oceano”

Em “Crônicas e Entrevistas” (2000), comentei que, durante uma fase
de minha infância, estudei no Colégio São Francisco de Sales, da Ordem
de Dom Bosco. Todavia, o tempo foi bastante para tornar-me um dos muitos
admiradores do respeitado educador de Turim. Erigiu uma pedagogia com
louvável benefício para os seus bericchini, jovens largados na vida em
uma Itália pobre, que se unificava sob a batuta da astúcia diplomática
(será redundância?) do Conde de Cavour (1810-1861), da pertinácia de
Mazzini (1805-1872), do espírito aguerrido de Garibaldi (1807-1882).
Dizia o célebre taumaturgo nascido em Becchi: “Um grandioso
acon¬tecimento se está preparando no céu para fazer pasmar as gentes.
(...) Far-se-á uma grande reforma entre todas as nações, e o mundo irá
misturar-se como um oceano”. (...)

O Brasil é uma grei globalizante

Volvendo os olhos para o nosso país, repleto de descendentes de
imigrantes e, também, de migrantes esperançosos de que finalmente sejam
integrados no melhor do seu tecido social, confirma-se a evidência de
que possui um dos mais extraordinários povos do orbe, e com
características privilegiadas, em virtude de sua extraordinária
miscigenação. É uma grei... globalizante...
Pietro Ubaldi (1886-1972), filósofo italiano, aqui chegado no início da
década de 1950, soube ver o que outros começam a perceber agora: “O
Brasil é a terra clássica da fusão de raças, é o melting pot em que tudo
se mistura. E sabemos que a natu¬reza se regenera na fusão de tipos
diversos, ao passo que o princípio racista isolacionista é antivital
(...)”.
Apesar da inópia à espera de ser definitivamente exorcizada, na Terra
de Santa Cruz subsiste a grandeza que lhe tem permitido manter o milagre
de sua unidade geográfica, idiomática, e expresso na capacidade de
sobreviver.
Ah! A extrema violência de hoje?! Será que a culpa é do povo ou da
senzala que não foi de todo desmontada? É da globalização? Antes foi do
quê? Com a palavra, o matemático germânico Leibnitz (1646-1716):
“Sempre tive por certo que, se refor¬mássemos a educação da
mocidade, conse¬gui¬ría¬mos modificar a linhagem humana”.
Mas em que bases? Hitler (1889-1945) também queria alterá-la... O
escritor francês Montaigne (1533-1592) nos oferece a resposta:
“Cuidamos apenas de encher a memória e deixamos vazios o
entendimento e a consciência”.
Isto é, além de instruir, urge ecumenicamente espiritualizar a grei
globalizante, que singulariza um caminho novo para o mundo. Quem viver
verá! O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) proclamava que “o Brasil
precisa descobrir o Brasil”.

Alfabetização

Aproveito para compartilhar a boa notícia que nos chega da Agência
Brasil: cerca de 2 milhões de jovens e adultos participarão d
o programa
Brasil Alfabetizado, conforme informa Amanda Cieglinski. Destaca a
jornalista: “O número ultrapassa a meta prevista para 2008 pelo
Ministério da Educação (MEC) que era de 1,3 milhão. A expectativa de
atendimento proposta por estados e municípios que aderiram ao programa
até o último dia 11 prevê o ingresso de novos alunos ainda este ano”.
Como brasileiros, torçamos e batalhemos para que o nosso país vença os
obstáculos e alcance ótimos resultados no campo fundamental da
educação.

Combate ao racismo

O jornalista Ancelmo Gois, na sua coluna em “O Globo” (3/11),
revela que “o ator Lázaro Ramos é o protagonista de um novo comercial
que o Unicef produz para combater o racismo contra crianças. O filme
chama a atenção para as diferenças sociais entre crianças negras e
indígenas, mostrando que a pobreza atinge 63% das indígenas e 59% das
negras. Mostra ainda que, das 660 mil crianças fora da escola, 70% são
negras”.
Barbaridade!

José de Paiva Netto - Jornalista, radialista e escritor.
paivanetto@uol.com.br - www.boavontade.com


 

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