Crônica do último chocolate
Adriana Vandoni
16/09/2008 16:48
Comecei muito cedo, tinha acabado de terminar o segundo grau quando me casei. Acredite, de livre e espontânea vontade, sem pedir a sobremesa antes do jantar, se é que me entende....rssssssss. É difícil acreditar e na época também foi, afinal, com aquela idade só mesmo em casos de extrema necessidade. Na cidade tinha uma mulher muito fofoqueira e novidadeira, como em toda cidade pequena, que assim que soube que eu iria me casar, nem titubeou. Ligou na minha casa e por azar, ou sorte, sei lá, eu atendi. Veio com aquela conversa mole do jeitinho que eu adoro. – Parabéns, Adriana, soube que ficou noiva e já vai se casar. – Obrigada Fulana. - Mas você não acha muito cedo pra se casar? Porque tão nova? - Ah, Fulana, então você não sabe? Eu estou grávida e precisamos casar antes do neném nascer.
Pronto, cortei o barato da fulaninha e ainda de quebra a deixei fazendo intermináveis cálculos pra saber quando a criança tinha que nascer...hahahaha. Adoro essa coisa de dizer o que a pessoa quer ouvir. Minha mãe que escutava a conversa ao lado quase teve uma síncope. – Todo mundo vai falar de você! – E daí mamãe? Deixa falar, tô preocupaaaaada!!!
Meu filho mais velho nasceu um mês antes de completar dois anos de casada. Na minha cabeça não tinha absolutamente nada, costumo dizer que se hoje tem pouco, imagine naquele tempo! Brincava com meu filho como se fosse um boneco, experimentava todas as roupinhas nele e era neurótica, achava que alguém podia roubá-lo de mim. Sorte que ele sempre foi bonzinho e de um bom humor que beirava o irritante. Explico: quando o bichinho começou a falar, gente, ele não parava. Um dia olhei pra ele e disse: - Você não tem depressão não, garoto? Rsssssssssss Ele não entendeu nada e ainda me bombardeou de perguntas sobre depressão.
Minha maturidade era tamanha que um dia, eu e ele estávamos assistindo um filminho com um pacote de chocolate, daí restaram três. Eu peguei um, ele outro e ficou um único mísero chocolate no pacote. Eu queria comer. Mas como? Eu não podia tomar o último chocolate do meu filho!, pensava comigo mesma. Nisso ele, muito perguntador, vira pra mim e diz: - mãe, como que é feito chocolate?, eu olhei pra ele, apertei bem os olhos, olhei pro último chocolate do pacote que estava olhando pra mim....pensei, pensei... pensei mais um pouquinho...e respondi: - você pega cocô coloca açúcar e bate, bate, bate. Põem na geladeira. Depois coloca mais açúcar e bate, bate, bate. E vai fazendo isso até virar chocolate. Ele me olhava pasmo com cara de nojo e enquanto engolia o último pedaço de chocolate que estava em sua boca eu ofereci o outro: - quer?, claro que ele disse não.
Ah, meu filho não ficou traumatizado, gosta de chocolate e morre de rir dessas histórias. Mas me chama de louca.
Mais Adriana Vandoni:


Enviar para um amigo
Imprimir