De analfabetos a doutores
Roberto Boaventura da Silva S√°
02/07/2009 13:51
A educação – por conta de graves problemas – passou a ser item recorrente na pauta da mídia brasileira. Nas últimas semanas, a imposição do MEC às universidades federais de um novo de vestibular, com base apenas no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), e a presença da polícia na USP ocuparam capas de veículos impressos e minutos preciosos em telejornais; mas, além disso, outras questões – também graves – têm surgido a cada dia. Das mais recentes, destaco dois tópicos polares: o analfabetismo e a (de)formação de doutores.
Sobre o primeiro, o Caderno Cotidiano, da Folha de São Paulo (FSP: 14/06), trouxe algumas atualizações, como, p. ex., o número de analfabetos: 14 milhões de brasileiros não leem nada. Desse contingente, 90% estão fora de quaisquer cursos. Continuarão, portanto, a se sentir impotentes, humilhados e excluídos, numa sociedade cada vez mais urbana e competitiva. Nunca poderão escrever, p. ex., que "Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.// Minha mãe ficava sentada cosendo.// Meu irmão pequeno dormia.// Eu sozinho menino entre mangueiras// lia a história de Robson Crusoé.// Comprida história que não acaba mais..." ("Infância" de Carlos Drummond).
A referida matéria da FSP não relembra outros dados estatísticos em torno da leitura e da escrita. Se relembrasse, o contingente de analfabetos seria ampliado, posto a total ineficiência da educação. Conforme o Sistema de Avaliação do Ensino Básico (SAEB/2007), 88% dos concluintes da 4ª série não sabiam ler plenamente. Dos que terminaram o ensino fundamental, 60% não conseguiam interpretar um texto elementar; ou seja, é um tipo de analfabeto disfarçado, posto ter alguma escolaridade a comprovar.
Já a conclusão do ensino médio quase não tem passado de formalidade à obtenção de emprego. Principalmente na rede pública, a qualidade é agressivamente rasteira. A expressão linguística de vários concluintes beira o bizarro; muitos não estabelecem sequer concordâncias verbais óbvias. A maioria – mesmo dentro das unidades escolares – repete estruturas da língua portuguesa de forma semelhante a de seus pais e a de seus avós que, por motivos socioeconômicos de uma época, não tiveram acesso nem à escolaridade básica.
Agora, pasmem, mas na ponta extrema disso surgem problemas em torno – e por consequência – da máxima formação acadêmica: o doutorado. Transcrevo o que Leandro Alves Rodrigues dos Santos – professor universitário e doutorando na USP – disse no Painel do Leitor/FSP, de 18/06/09: "Felizmente o assunto da diminuição na procura pelo doutoramento vem à tona (Opinião, FSP: 15/06). Isso é fruto da total falta de perspectiva no que se refere à obtenção de um emprego mais qualificado, tanto nas empresas mais tradicionais, que não valorizam esse título, por soar acadêmico demais, como no ensino superior, no qual os professores são demitidos após comprovação de titulação. É tragicômico observar doutores retirando de currículo os seus títulos e doutorandos ocultando que obterão o título em breve..."
Claro que isso não é novo, mas toda vez que a questão vem à tona, a mim causa profundo desconforto; afinal, mesmo com problemas gritantes no processo de formação de doutores, jamais se suporia que a obtenção de um título máximo no percurso acadêmico pudesse vir a ser empecilho para que um cidadão encontrasse um posto de trabalho. Pior é saber que as faculdades particulares, ou dispensam ou quase nem mais contratam doutores. Quando muito, elas usam tais títulos para se apresentar legalmente diante de vistorias eventuais que o MEC promove nas instituições. Depois da farsa, adeus doutores!
Por falar em farsa – para possíveis revisões – há de se reconhecer os vários problemas na pós-graduação. Destaco três: a) atrelamento de muitas pesquisas a imposições do mercado; b) império da lógica quantitativa nas produções dos trabalhos acadêmicos; c) curto tempo de duração dos mestrados, principalmente. O fato é que, salvo exceções, já não se faz mais nem o mestrado nem o doutorado como antigamente. No momento, o extremo da comprovação disso fica por conta de aventureiros que lotam ônibus, uma vez por mês, e viajam para cidades da América Latina, como Juan Caballero, no Paraguai. Com o título embaixo do braço, apresentam-se aqui como doutores. A continuar isso, em breve, duas pontas polares do sistema poderão se juntar. Será o epílogo de uma tragédia já em curso.
Roberto Boaventura da Silva Sá é Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT rbventur26@yahoo.com.br

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