Religi√£o n√£o rima com intoler√¢ncia
Paiva Netto
02/04/2009 14:34
Na Folha de S.Paulo, década de 1980, arguido por um leitor, ponderei
que não vejo Religião como ringues de luta livre, nos quais as muitas
crenças se violentam no ataque ou na defesa de princípios, ou de Deus,
que é Amor e que, por isso, não pode aprovar manifestações de ódio em
Seu Santo Nome nem precisa da defesa raivosa de quem quer que seja.
Alziro Zarur (1914-1979) dizia que “o maior criminoso do mundo é
aquele que prega o ódio em nome de Deus”.
Compreendo Religião como Solidariedade, Respeito à Vida, Iluminação do
Espírito, que todos somos. Só posso entendê-la como algo dinâmico, vivo,
pragmático, altruisticamente realizador, que abre caminhos de luz nas
almas e que, por essa razão, deve estar na vanguarda ética. Não a
entenderia, se não atuasse também de modo sensato na transformação das
realidades tristes que ainda atormentam os povos. Esses, cada vez mais,
andam necessitados de Deus, que é antídoto para os males morais e
espirituais, por consequência os sociais, incluídos o imobilismo, o
sectarismo e a intolerância degeneradores, que obscurecem o Espírito das
multidões. (...) E, de maneira alguma, deve-se excluir os ateus de
qualquer providência que venha beneficiar o mundo.
Religião, como sublimação do sentimento, é para tornar melhor o Ser
Humano, integrando-o no seu Criador, pelo exercício da Fraternidade e da
Justiça entre as Suas criaturas. Com apurado senso de oportunidade,
preconiza o Profeta Maomé, no Corão Sagrado: “Cremos no que nos foi
revelado e no que vos foi revelado. Nosso Deus e vosso Deus é o mesmo. A
Ele nos submetemos”.
Deus, Sabedoria e Entendimento
O Pai Celestial é fonte inesgotável de Sabedoria e Entendimento, quando
não analisado sob forma estereotipada ou caricaturada. Vêm-me à
lembrança estas palavras de Santa Teresa d’ Ávila (1515-1582):
“Procuremos sempre olhar as virtudes e as coisas boas que virmos
nos outros e tapar-lhes os defeitos com os nossos grandes pecados”.
Tudo evolui. Ontem se afirmava que a Terra seria o centro do Universo.
Por que então as crenças teriam de parar no tempo? Pelo contrário,
religião, quando sinônimo de misericórdia, tem de iluminar
harmoniosamente os demais extratos do pensamento. Bem a propósito, esta
meditação do nada menos que cético Voltaire (1694-1778): “A tolerância
é tão necessária na política como na religião. Só o orgulho é
intolerante”. (...)
Para amainar a frieza de coração
Cabe ainda recordar esta máxima abrangente de Zarur: “Religião,
Filosofia, Ciência e Política são quatro aspectos da mesma Verdade, que é
Deus”.
Ora, querer conservar esses ramos do saber universal confinados em
departamentos estanques, ou em preconceituoso conflito, tem sido a
origem de muitos males que nos afligem, em especial tratando-se de
Religião, entendida no mais alto sentido. É principalmente de sua área
que deve provir o espírito solidário, que, se às demais faltando,
resulta na frieza de sentimentos a qual vem caracterizando as relações
humanas, mormente nestes últimos tempos.
Não haverá Paz enquanto persistirem cruéis discriminações e desníveis
sociais criminosos
A ausência de Fraternidade tem suscitado grande defasagem entre
progresso material e amadurecimento moral e espiritual. Mas é sempre
hora de aplacar ressentimentos. Contudo, não haverá Paz enquanto
persistirem cruéis discriminações e desníveis sociais criminosos,
provocados pela ganância, que, pela eficiente Educação com
Espiritualidade Ecumênica, devemos combater. Se não optarmos por
caminhos semelhantes, estaremos sentenciados à realidade denunciada pelo
Gandhi (1869-1948): “Olho por olho, e a Humanidade acabará cega”.
Sempre um bom termo pode surgir quando os indivíduos nele lealmente se
empenham. E isso tem feito que a civilização, pelo menos o que vemos por
aí como tal, milagrosament
e sobreviva aos seus piores tempos de loucura.
A sabedoria do Talmud dá o seu recado prático: “A paz é para o mundo o
que o fermento é para a massa”. Exato.
Há quem prefira referir-se ao espírito religioso, exaltando desvios
patológicos ocorridos no transcorrer dos milênios. (De modo algum incluo
nestes comentários os historiadores e analistas de bom senso.) Creio que
essa conduta beligerante, que manchou de sangue a História, deva ser
distanciada de nossos corações, por força de atos justos, porquanto
maiores são as razões que nos devem confraternizar do que as que servem
para acirrar rancores. O ódio é arma voltada contra o peito de quem
odeia. Muito oportuna, pois, esta advertência do Pastor Martin Luther
King Jr. (1929-1968), que não negou a própria vida aos ideais que
defendeu: “Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os
peixes, mas não a arte de conviver como irmãos”.
Ademais, o milagre que Deus espera dos Seres Humanos é que aprendam a
amar-se, para que não ensandeçam de vez, conforme pesquisa para o uso
bélico da antimatéria. O melhor altar para a veneração do Criador são
Suas criaturas. Torna-se urgente que a Humanidade tenha humanidade.
A virtude da temperança
Em Reflexões da Alma, anotei que não haverá Paz duradoura enquanto
prevalecerem privilégios injustificáveis, que desonram a condição
humana, pela ausência de solidariedade, que deve iluminar homens e
povos. Escreveu Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865): “A Paz obtida com
a ponta de uma espada não passa de uma simples trégua”. Por isso,
nestes milênios de “civilização”, multidões morreram sob a chacina
das armas, da fome e da doença. (...) Jesus sempre pregou e viveu a
Fraternidade. Como realmente acreditamos no Divino Chefe, temos de
batalhar pelo que apresentou como solução para os tormentos que ainda
afligem as nações. A temperança é virtude indispensável nesta peleja.
Entretanto, diante dos desafios, não confundamos pacifismo com
debilidade de caráter. Bem a propósito, estas palavras da autora Eleanor
L. Doan: “Qualquer pusilânime pode louvar a Cristo, todavia é preciso
ânimo forte para segui-Lo”. Não podemos também nos esquecer dos
exemplos dos cristãos primitivos, mas, sim, neles buscar a vivência que
precisa ser repetida neste mundo, qual seja, a da Paz: “Da multidão
dos que creram, era um o coração e a alma. (...) E assim, perseguidos
por todos os meios, passaram a viver em comunidade, não havendo
necessitados entre eles, porque todos se socorriam, cada qual com o que
possuía” (Atos dos Apóstolos de Jesus, 4:32 a 34).
José de Paiva Netto - Jornalista, radialista e escritor.
paivanetto@uol.com.br - www.boavontade.com
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